5 de abril de 2010

Um crocodilo na passarela

Confesso que eu caí de amores pelo tema da palestra de Paula Acioli, que aconteceu na última quarta-feira, dia 31 de março. Como vocês sabem, o encontro é parte do ciclo de palestras“Debem com a moda”, realizado toda última quarta-feira do mês no Shopping Rio Sul. Como já devem ter desconfiado, a conversa foi sobre a história de René Lacoste– criador da famosa marca francesa que leva seu nome – e também abordou um tema muito bacana e importante de se discutir no mundinho fashion – a relação entre moda e projetos sociais.

Para começar, Paula buscou referências do cotidiano para introduzir o assunto. Lembrou do aparecimento de crocodilos na Barra da Tijuca, de uma tirinha publicada na coluna de Anselmo Góis (“Crocodilo ataca o Rio – Ibsen voracis”, que se refere à emenda do deputado federal Ibsen Pinheiro sobre o destino dos royalities do petróleo), explicou a diferença entre crocodilo e jacaré (portanto, não confunda.) Como não podia deixar de ser, Paula trouxe no look uma referência à palestra do dia: um bracelete SONHO de crocodilo. Não teve quem não desejasse o mimo (me lembrem de postar a foto depois!).

Das quadras à passarela

Antes de se tornar dono de uma das marcas mais conhecidas e desejadas do mundo, René Lacoste (1904-1996) foi conhecido por outra façanha: quando jovem, ele foi um notável jogador de tênis,conhecido por seu estilo agressivo e suas posições de jogada pouco convencionais.


Existem várias versões para o apelido de “crocodilo”, pelo qual ficou conhecido. A oficial é a de que, durante um campeonato em Boston, se encantou por uma bolsa de couro de crocodilo durante um passeio com outros tenistas. O preço nada amigável do objeto de desejo o levou a fazer uma aposta com os amigos. Se ganhasse o torneio, teriam que presenteá-lo com a bolsa. A história chegou aos ouvidos de um jornalista que, apesar da derrota de Lacoste, afirmou que o tenista jogou com “a garra de um crocodilo”. O apelido pegou. Já o famoso desenho do crocodilo que estampa os produtos da marca, foi presente de um amigo. Lacoste gostou tanto que passou a estampar o animal em suas roupas.

Naquela época, as roupas dos jogadores de tênis não eram nada confortáveis, o que levou Lacoste a desenvolver a tradicional camisa de manga curta, a 12x12, conhecida também pela trama do tecido, chamada petit piqué. Do mesmo modo que Coco Chanel revolucionou o guarda roupa feminino, nos livrando dos espartilhos e das inúmeras camadas de roupas, Lacoste soube perceber uma dificuldade - a roupa incômoda e que tolhia os movimentos do jogador de tênis - e propor uma solução.


Em 1933, ele começa uma parceria com o amigo André Gillier, fabricante de meias, e passa a produzir a camisa 12x12. Ao longo do tempo, a marca cresce e passa a estampar outros produtos, como calçados e perfumes. René esteve presente à frente da marca até sua morte, em 1996, aos 92 anos. Seu filho Bernard assumiu a liderança da empresa até 2006, quando veio a falecer. Atualmente, Michael Lacoste, outro filho do empresário e tenista, assume a direção da marca.



A Lacoste, prestes a completar 100 anos, transformou seu crocodilo em símbolo de status. Apesar disso, não escapou do desprestígio que grandes e antigas marcas passaram na década de 90, o que levou à necessidade de um renascimento de muitas delas. A Lacoste, então, ressurge firmando-se como uma marca esportiva e retrô, tendo como caracterítica a leveza. As campanhas apontam esse atributo, com os modelos em pleno ar, imitando os movimentos de René Lacoste no tênis. De acordo com Paula, o desfile da Lacoste, inclusive, mantém essas características, não chegando exatamente a empolgar quem espera espetáculos à moda do já saudoso Mc Queen.


Projetos Sociais

A esta altura você já deve está se perguntando onde está o lado social da marca Lacoste. Além da Fundação René Lacoste, que auxilia jovens esportistas, a marca também está à frente da campanha “Save your logo”, que ajuda na preservação de crocodilos, jacarés e outros animais dessas famílias. Outra iniciativa bacana foi feita entre a Lacoste, os irmãos Fernando e Humberto Campana e a cooperativa Coopa-Roca (Cooperativa de Trabalho Artesanal e de Costura da Rocinha Ltda), apresentada durante a Semana de Moda de Paris, em junho de 2009.


Campanha Lacoste Save Your Logo

A convite da Lacoste, os designers brasileiros fizeram releituras da tradicional camisa pólo da marca. Para por em prática a ideia, contaram com o trabalho das bordadeiras da Coopa-Roca. Quem contou a experiência durante o encontro “De bem com a Moda”, foi a socióloga Maria Teresa Leal, a Tetê, coordenadora artística e executiva da cooperativa. À frente da Coopa-Roca desde a década de 80, Tetê destaca a importância do trabalho na Rocinha. “É uma oportunidade para essas mulheres terem um ofício, podendo trabalhar em casa”. A cooperativa, que já fez inclusive parcerias com marcas como M.Officer, Olsklen e com o artista plástico Ernesto Neto, pretende lançar a etiqueta Coopa-Roca durante a feira de negócios Rio-à-porter, no final de maio. O estilista Mario Olinto está à frente do processo criativo.

Campanha Save Your Logo - Campanas + Lacoste


Voltando à parceria Lacoste-Campana-Coopa-Roca, o trabalho resultou em três linhas de camisas. A primeira, batizada de Anavilhanas, faz referência ao maior arquipélago fluvial do mundo, na Amazônia. Foram bordados em 125 camisas masculinas crocodilos da marca amontoados, formando várias ilhas. Em 125 camisas femininas, por sua vez, os crocodilos foram bordados em linhas aleatórias, em referência aos cipós que crescem nas regiões tropicais do Brasil, as Lianas. Essas duas versões limitadas levam 1 mês para ficarem prontas, sendo vendidas por R$ 5 mil cada uma. A terceira linha, ultra-mega-blaster-power-limitada, é feita sem a camisa pólo branca como base. Os crocodilos são bordados um no outro e foram feitas apenas 30 unidades – 15 femininas e 15 masculinas – é edição de colecionador. A confecção da peça demora cerca de dois meses e custa R$ 30 mil. A Coopa-Roca precisou recrutar 100 bordadeiras e contratar outras 40 para dar conta da produção em três meses. Todas as unidades já foram vendidas.

Camisa Lacoste+Campanas+Coopa-Roca superexclusiva (acima, detalhe do bordado), camisa feminina Lianas e masculina Anavilhanas

Ritmo de Festa...

Quem quiser assistir ao próximo encontro do "De bem com a moda", vai ter que esperar até a última quarta-feira de maio. O motivo é que abril é mês de festa no Rio Sul! O Shopping completa 30 anos e prepara um monte de novidades! Posso adiantar que estão sendo preparados editoriais bacanudos com modelos poderosos (ui!), exposição e um prêmio-sonho para jovens estilistas. Assim que souber mais detalhes, desabafo por aqui!

Fiquem ligados!!!

(Ai, não resisti à breguice!)

Beijos!

2 manifestos comunistas de uma gente sem fronteiras:

nath disse...

Não sabia que Lacoste englobava tantas campanhas e projetos socias...
Muito bem escrito, como sempre.
Beijo, perua.
Saudades!

Mariana: Barbie is a bitch darling disse...

eu gosto da marca lacoste

bj