3 de janeiro de 2009

Aventuras, despertar e minúscula

Aventuras, despertar e minúscula
Se eu pudesse escolher uma única aventura para fazer nas férias, com certeza seria a leitura. Não sou dotada de coordenação motora para me embrenhar em caminhadas ou nados eficientes em alto-mar.
Uma boa relação de livros me acompanhou nas últimas semanas, desde clássicos Agatha Christie, constantemente impregnando minhas férias, a atuais best-sellers.
Mas os que mais me fizeram assumir postura de monge tibetano, levando-me a longos devaneios e meditações, nem são tão conhecidos assim. O que eu acho uma pena, pois muita gente não sabe o que está perdendo.
O primeiro chama-se The Awakening, ou O Despertar, como foi traduzido por aqui, e é da escritora norte-americana Kate Chopin (1851-1904). Conta a história de Edna, uma mulher jovem, com dois filhos, que desafia a sociedade dezoitocentista com seu comportamento independente e idéias que não condizentes com seu "papel social". O livro causou furor com sua publicação, em 1899, por tratar-se de uma obra de conscientização feminina, que acompanha esse processo na vida de sua personagem principal.
Obviamente, não é tanto assim o nosso caso. Mas dá gosto acompanhar a revolução psicológica, os amores e ímpetos de Edna. Atire a primeira pedra a mulher que não cultivou dúvidas semelhantes por trás de contratos sociais e regras absurdas de comportamento.
"Havia dias em que ela estava muito feliz sem saber por quê. Ela estava feliz por estar viva e respirando, quando todo seu ser parecia ser um com a luz do sol, com a cor, com os odores, o luxuoso calor de alguns dias sulistas perfeitos. Ela gostava então de vagar sozinha em lugares estranhos e desconhecidos. Descobriu um canto muito ensolarado, sonolento, feito para ali se sonhar. E achou bom sonhar e ficar sozinha e sossegada." [O Despertar, Kate Chopin].
Já o segundo livro é do espanhol Francesc Miralles e chama "Amor em Minúscula". Confesso que comprei o livro sem colocar muita fé na história. Achei que se tratasse de um daqueles romancesinhos água-com-açúcar, deliciosos para matar o tempo ocioso. Mas me surpreendi ao ler um livro rico, denso e reflexivo. Um presente saboreado nos últimos dias de 2008.
Amor em minúscula, ao contrário do que o título leva a crer, não é uma historinha de amor piegas. É um termo que o narrador-personagem, Samuel, encontra para definir as pequenas ações do dia-a-dia que podem levar a grandes acontecimentos, a revoluções magníficas em nossas existências. E Miralles representa essa pequena atitude a partir do singelo pratinho de leite que é dado a um gato abandonado. Eu não vou entrar em detalhes para não estragar o fim da história, mas posso adiantar que o autor junta Kafka, Goethe, Hesse (que inspirou Anitelli na criação d'OTeatro Mágico) , Bukowski (que não é apenas o nome de um bar/restaurante/casa noturna no Rio de Janeiro), Mendelssohn, Billie Holiday e outras referências numa única obra, para falar sobre o lado oculto da lua e o sentido da vida.
[Ah, sim. antes que a preguiça do mês de férias os impeça de ler a obra, aviso que essas referências são bem saudáveis. Samuel, assim como Miralles, é professor de filologia alemã. Por isso a referência a algumas personalidades de origem germânica. É divertido, eu garanto. Ele conta até fofoquinhas sobre os nomes acima citados!]
Por agora é só. Tenho até recomendações sobre outros autores e obras. Mas acho que essas por enquanto já consistem em boa diversão para quem passar por aqui.
Torçam os dedinhos, meus queridos. Como meus momentos lúdicos e de diversão não se resumem a leituras intensas e contos de fada, vou semana que vem me aventurar em marolas gélidas na Região dos Lagos. Como alguns aí devem ter lido ou assistido o filme, posso fazer referência: Isabella Swan é fichinha perto de mim no quesito trapalhadas. Só hoje quase provoco um curto-circuito na geladeira e explodo o CDplayer.
Ah! Um ótimo 2009 para vocês. Boas leituras!

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