Outras Memórias...
Dessa eu não lembrava. Até que minha inseparável melhor amiga desde os 12 anos de idade reavivou esta desventura escondida nos distantes baús da desmemória...
Com vocês, O Caso da Combe Branca.
Divirtam-se!
"por Nathalia, que, uma vez, por causa de sua mãe [ e da mãe da Cinthia e da mãe do Ricardo], passou pela seguinte situação desesperadora:
Foi exatamente na época em que os desaparecimentos de crianças estavam no "auge". Todo o país, e principalmente as mães, estavam num desespero total. E, a mãe das pessoas citadas acima, estavam mais do que incluídas nesse número gigantesco de mães aflitas (é claro), pois embora ainda não tivesse acontecido nenhum caso de desaparecimento em nossa cidade, um boato de que pessoas em uma Combe Branca estavam sequestrando crianças que andavam sozinhas pelas ruas, tinham se espalhado.
Assim sendo, nossas mães nos alertaram para não ficarmos perambulando pelas ruas, coisas que, para mim e para o Ricardo era extremamente difícil, pois, íamos embora para casa sozinhos. Mesmo assim, apavorados, nós dois (e a Cinthia também) tentavamos seguir os conselhos de nossas mães à risca.
Até o dia que, por um motivo que eu não me recordo agora, mas, tenho quase certeza que era por causa do jogo do Brasil, a escola foi fechada mais cedo. E por algum motivo também que eu não me lembro, nós três fomos os últimos a sair da escola. Até o porteiro foi embora na nossa frente! Mas, é claro que, antes, ele nos "expulsou" da escola. Assim, tivemos que ficar na rua do colégio, que, aquela altura do campeonato, estava deserta.
Você deve estar se perguntando: "Por que essas criaturas ficaram na rua deserta ao invés de irem para casa"?
Simples.
Porque a Cinthia ia de Micro Onibus para casa. Micro esse que só passava na nossa escola lá por volta da uma hora da tarde. Então, eu e o Ricardo, como os bons amigos que nós éramos (e ainda somos), decidimos esperar a Cinthia decidir o que ia fazer, pois, ficar ali, sozinha na rua da escola esperando até uma hora da tarde (e ainda não era nem 9 horas) era o que ela não podia fazer.
Então, fomos ao orelhão (sim, orelhão! Afinal, éramos apenas um garoto e duas garotas de treze anos e na nossa época [me senti dezoito anos mais velha do que eu realmente sou, aqui, agora] garotos e garotas de treze anos não possuíam celular) ligar para a Rita, a mãe da Ci, para perguntar se ela podia ir para a minha casa pelo menos, que não ficava muito longe da escola (apenas uns cinco minutinhos à pé).
Entretanto, a Rita não achou isso uma boa idéia e mandou que a Cinthia esperasse lá na frente da escola mesmo que a avó dela iria buscá-la.
Beleza!
Como amigos muito bonzinhos que somos, eu e o Ricardo nos propusemos a ficar lá com a Perua da Ci esperando sua avó chegar. Mas isso foi porque nós ainda não tínhamos reparado na quantidade de carros que estavam estacionados ao longo da rua da escola e muito menos na cor deles. De mais de vinte carros (sim, a rua da escola era muito grande), todos eles eram brancos . Impressionado com o fato, o Ricardo vira para nós e comenta:
- Vocês ficaram sabendo daquela história das pessoas da combe branca que raptam crianças que estão sozinhas nas ruas para poder tirar os órgãos delas?
Eu já estava nervosa pelo fato de que, estávamos sozinhos em um rua deserta. Tinha ficado ainda mais preocupada pelo fato de todos (sem brincadeira, TODOS) os carros serem brancos. Sinceramente, eu não precisava saber aquela última parte da história e acho que a Ci também não porque lembro dela ter olhado para mim como uma cara de desespero que, se não estava igual a minha na hora, estava mil vezes pior.
- Ouvimos! - respondemos olhando para os lados como se alguém com uma machadinha fosse pular de um canto a qualquer momento e tentar abrir nossas barrigas.
- Então, vocês já repararam na cor desses carros? - perguntou ele.
- São brancos! - respondi desejando que uma lata de tinta azul, rosa, verde florescente, ou qualquer outra cor se materializa-se ali na minha frente só para que eu pudesse pintar aqueles carros de outra cor.
- É mas, não tem nenhuma Combe aqui. - observou Cinthia sempre muito esperta. Entretanto, dessa vez, melhor teria sido que ela não tivesse pronunciado nada, pois foi só ela dizer isso que...
UMA COMBE BRANCA APARECEU NA RUA!
Não preciso dizer que nós entramos em pânico não é mesmo?
Também, imagina só a cena: três adolescentes sozinhos na frente da escola deserta cuja rua em que estava localizada também estaria deserta se não fosse pela combe branca que passava por eles a menos de 20 quilômetros por hora.
Então? Não era para se ficar desesperado?
Isso tudo sem mencionar que, devido as histórias contadas por nossas mães, por mais que as pessoas que estavam na combe fossem cardiais do Papa, naquele momento, para nós, eles eram perigosos assassinos sequestradores fugitivos, que felizmente não nos raptaram.
- Ufa! Ainda bem! - exclamou a Cinthia depois que a combe passou. - Já pensou se esses caras nos pegam aqui?
- Pelo menos o Ricardo tá aqui com a gente! - lembrei
- Eu??? - perguntou ele apavorado - Como se eu fosse adiantar de alguma coisa! Nem pensem que eu vou defender vocês. De mim, a única ajuda que vocês vão ter vai ser na hora de avisar que é para correr. Porque eu vou gritar "CORRE!" e nisso, já vou sair em disparada, se vocês ouvirem...bem. Senão...
(Garotos da nossa geração, mal servem para trocar lâmpada e matar barata. Antigamente, os rapazes chegavam a matar e morrer por suas donzelas. Tá bom, nem eu e nem a Ci, éramos donzelas do Ricardo [embora muita gente insistisse que eu e ele tínhamos uma amizade colorida, né Cinthia???], mas... ele ao menos podia tacar uma pedra na cabeça dos seqüestradores, caso eles viessem nos sequestrar. Ao menos isso né?).
Após esse comentário, a única coisa que eu e a Ci pudemos fazer foi olhar uma para a outra indignada. O que em um diálogo seria o equivalente a:
- ¬¬'!
- OO'!
Entretanto, nossa indignação não durou muito tempo pois... a combe branca tinha voltado à rua! E dessa vez, vinha mais lerda do que nunca! Até uma tartaruga, até uma lesma, até o Rubinho conseguiriam ultrapassar.
Tanto que, mediante a isto e mediante também ao fato de que, provavelmente, a combe ia parar para fazer alguma coisa (fosse pedir informação ou nos raptar), e, visto que, a hora não passava e a vó da Cinthia não chegava, nós começamos a CORRER!
Isto aí! Correr! Muito!Desesperadamente!
Sabe a cena do filme de terror em que os mocinhos e mocinhas, tentam a todo custo escapar do que quer que seja que os estejam perseguindo? Então, é exatamente igual!Mas, sem os gritos!
Continuamos correndo com a combe branca bem atrás de nós. E, quando alcançamos a primeira esquina, adivinha quem nós encontramos?
A senhora avó da Cinthia! A nossa heroína e salvadora! Viva a avó da Cinthia!
Depois que ela chegou todos nós conseguimos ir para a casa felizes e salvos!
Ufa! Ainda bem!
Mas, tudo culpa de quem?
Da combe branca?
Não! Ela passou direto (mais uma vez).
Culpa da dona Adriana, da dona Rita e da dona mãe do Ricardo (que eu não sei o nome).
Essas mães... "
por Nath